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Líbano aguarda apreensivo resultado de eleições que podem redefinir tabuleiro político

Por Jr Blitz 14/05/2022 às 07:20:15
No Líbano o voto é efetuado regionalmente, e cristãos maronitas, muçulmanos sunitas, muçulmanos xiitas, drusos, ortodoxos e outras religiões votam separadamente uns dos outros. Partidários da lista eleitoral de Michel Aoun, atual presidente libanês, do Movimento Patriótico Livre, fazem buzinaço na milenar cidade libanesa de Byblos (norte), 12 de maio de 2022.

Marcia Bechara/RFI

O Líbano se prepara para viver um dos fins de semana mais agitados de sua história política recente, e não é para menos: no domingo, 15 de maio, os libaneses votam em suas primeiras eleições legislativas desde os protestos de 2019 que não só paralisaram o país, como também colocaram em xeque a classe política libanesa e relançaram questões como a corrupção endêmica e a catastrófica crise econômica agravada pela pandemia e a dupla explosão no porto de Beirute.

O clima no Líbano na véspera dessas tão aguardadas eleições legislativas se intensifica num misto de tensões e esperança. Nesta quinta-feira (11) em Tripoli, a segunda maior e também a mais pobre cidade libanesa, um porto de escoamento importante depois da dupla explosão no porto de Beirute em 2020, era possível ver carreatas de veículos com bandeiras de candidatos e buzinaços na orla marítima. Mesma coisa na estrada saindo de Byblos, ainda no norte do país, e também na chegada à capital Beirute, onde uma carreata de apoio ao atual presidente libanês, Michel Aoun, congestionava o centro histórico.

No Líbano, a propaganda política é espalhada por meio de outdoors publicitários e alguns cartazes amarrados em locais estratégicos das cidades. Mas não há cartazes colados nos muros, nem aquela profusão de santinhos dos candidatos nas ruas que se costuma ver no Brasil em época de campanha. Eventos com carros de som e bandeiras também são vistos em alguns locais.

Mas os libaneses deixaram a reportagem da RFI de sobreaviso: a situação pode ficar dramaticamente tensa no domingo, dia do voto. Prova disso, o governo francês emitiu um aviso oficial por meio de sua plataforma diplomática a todos os seus cidadãos no Líbano, avisando para o risco de manifestações violentas no domingo.

No Líbano o voto é efetuado regionalmente, em listas pré-definidas de candidatos locais, e cristãos maronitas, muçulmanos sunitas, muçulmanos xiitas, drusos, ortodoxos e outras religiões votam separadamente uns dos outros, em seções definidas por credo religioso. Além disso, os homens votam separadamente das mulheres nas seções eleitorais.

Favoritos?

A única coisa que parece certa nesta eleição é a completa incerteza que paira em torno dela. O cientista político libanês Joseph Bahout, da Universidade Americana de Beirute, explica que não existe um teto máximo de candidaturas permitido, ou seja, todos e todas podem não só se candidatar, como também se retirar do jogo político no meio do processo, fato que não vem sendo incomum nesta campanha.

O especialista acredita, no entanto, que esta eleição não trará as tão sonhadas mudanças que inspiraram a “revolução”, como é conhecido aqui o movimento de protesto que eclodiu no Líbano em 17 de outubro de 2019, e que convulsionou o país. Para ele, o pleito de 2022 poderá, pelo contrário, reforçar o poder do sistema atual, consagrando forças políticas tradicionais libanesas, como as Forças Libanesas, o partido Kataieb, também conhecido como Falanges Libanesas, e o Movimento Patriótico Livre, do presidente Michel Aoun. Além da milícia militarizada do Hezbollah, partido que é instrumentalizado por praticamente todos os outros para aterrorizar a população.

O experiente ex-deputado Moustapha Allouche, fundador do Movimento do Futuro, partido do ex-primeiro-ministro Saad Hariri e uma das forças políticas mais importantes do Líbano, durante entrevista para a RFI em Tripoli (norte), em 12 de maio de 2022

Marcia Bechara/RFI

O experiente ex-deputado Moustapha Allouche, fundador do Movimento do Futuro, partido do ex-primeiro-ministro Saad Hariri e uma das forças políticas mais importantes do Líbano, disse nesta quinta-feira em Tripoli que acredita que o atual premiê libanês, o bilionário muçulmano sunita Najib Mikati, deve ser reeleito “porque agrada tanto as milícias do Hezbollah, de quem é embaixador, quanto a sede das grandes economias europeias”. O único não-contemplado neste jogo parece mesmo ser o libanês comum, que sofre com cortes de eletricidade diários que duram horas e que agradece quando tem água em casa.

Mobilização X apatia

Os libaneses, no entanto, parecem mobilizados, tanto nos centros urbanos quanto nas áreas agrícolas. O jornal "L"Orient le Jour", um dos principais veículos libaneses, noticiou inclusive que a participação do voto antecipado da diáspora libanesa no mundo, no último dia 8 de maio, chegou a triplicar em algumas regiões.

Uma grande parte dos libaneses diz contestar a manutenção do sistema confessional libanês. Mas o cidadão comum tem medo de que, com a abolição da cota política por religiões, ele fique subrepresentado no Parlamento.

As opiniões oscilam junto com as preferências políticas. Existem eleitores que estavam dispostos a abrir mão de visões mais progressistas de candidatos independentes para se aliar a forças tradicionais, esperando estabilidade, mas que de ontem para hoje voltaram atrás.

Esta não é definitivamente uma eleição inspirada pelos ventos da mudança, mas possivelmente uma tentativa desesperada de sair do fundo do poço e sentir, mesmo que por um segundo, uma atmosfera menos caótica e onde se possa sonhar minimamente com um futuro mais digno.

Fonte: G1

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